Em tempos de Natal percebo que minha caixa de e-mail enche de mensagens preposterosas. As que me dou o trabalho de ler me impressionam pela deficiência de perspectiva sobre as coisas. Nesse caso sempre me lembro do famoso texto de Carl Sagan que serve como um tapa de realidade.
Em 14 de Fevereiro de 1990 a Voyager 1 tirou essa foto da Terra há mais de 6 bilhões de quilômetros de distância. As faixas visíveis na imagem são raios de luz vindos do Sol. Em 1996, Carl Sagan compartilhou seus pensamentos sobre essa foto, sem dúvida a descrição mais inspiradora e criteriosa a acompanhar uma imagem da Terra.
Por Carl Sagan
Tradução por Alexandre Schulter
Originalmente publicado em Planetary Society
Deste ponto de vista, a Terra talvez não desperte algum interesse. Mas para nós é diferente. Considere de novo aquele ponto. É aqui, é o nosso lar. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que você conhece, todos que você ama, todos que você já ouviu falar, todo ser humano que já foi, viveu suas vidas ali. O agregado de todas nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões certas, ideologias e doutrinas econômicas. Todo caçador e saqueador, todo herói e covarde, todo criador e destruidor de civilizações, todo rei e camponês, todo jovem casal apaixonado, toda criança esperançosa, toda mãe e pai, todo inventor e explorador, todo professor de moral, todo político corrupto, todo superastro, todo líder supremo, todo santo e pecador da história de nossa espécie, viveu ali – em um grão de poeira suspenso num raio de sol.
A Terra é um palco minúsculo em uma vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que na glória e no triunfo eles pudessem se tornar mestres momentâneos de uma fração do ponto. Pense nas infindáveis crueldades cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel sobre os habitandes escassamente distinguíveis de algum outro canto do pixel. O quão frequente são seus desentendimentos, o quão ansiosos eles são para matarem uns aos outros, o quão fervente são seus ódios. Nossas posturas, nossa imaginada auto-importância, a enganação de que temos uma posição privilegiada no universo, são desafiados por esse ponto de luz pálida.
Nosso planeta é um pontinho solitário na grandiosa escuridão cósmica que nos cerca. Em nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há o menor sinal de que ajuda virá de outro lugar para salvar-nos de nós mesmos. Depende de nós. A Terra é o único mundo, até onde se sabe, capaz de abrigar vida. Não há outro lugar, ao menos num futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Morar e viver, não. Goste-se ou não, por enquanto a Terra é o local onde estamos estabelecidos.
Tem-se dito que astronomia é uma experiência de humildade e também, posso adicionar, formadora de caráter. Talvez não haja demonstração mais clara da ingenuidade do convencimento humano que essa distante imagem de nosso pequeno mundo. Para mim, ela ressalta a nossa responsabilidade de nos relacionarmos melhor uns com os outros e de preservarmos e adorarmos esse pálido ponto azul, a única casa que já conhecemos.
