Por Michael Balter
Tradução por Alexandre Schulter
Originalmente publicado em ScienceNOW Daily News
Não tome por certo aquele martelo. Usar ferramentas pode parecer de natureza secundária, mas apenas poucos animais conseguem dominar a coordenação e a sofisticação mental requerida. Então como os primatas aprenderam a usar ferramentas em primeiro lugar? Um novo estudo sugere que o truque do cérebro é tratar ferramentas como se fossem outra parte do corpo.
Primatas, com seus quatro dedos flexíveis e polegares opostos, tem uma capacidade altamente evoluída de pegar e manipular objetos. Pesquisas anteriores mostraram que muitas dessas ações são controladas por uma área do cérebro chamada F5. Quando a mão abre e fecha para pegar um objeto, neurônios da área F5 disparam em uma sequência previsível. No linguajar dos neurocientistas, os neurônios são ‘codificados’ para controlar os movimentos da mão. Quando primatas aprendem a usar a ferramenta, seu cérebro deve codificar neurônios não só para mover a mão como para fazer a ferramenta manipular um objeto, uma tarefa muito mais cognitivamente complexa.
Para investigar como o cérebro desempenha essa destreza de mão, uma equipe liderada pelo neurocientista Giacomo Rizzolatti da Universidade de Parma na Itália gravou atividade cerebral em dois macacos do gênero Macaca. Cada um foi treinado de 6 a 8 meses para pegar ítens de comida com alicates. A equipe documentou a atividade de 113 neurônios na F5 e em uma área do cérebro chamada F1, a qual também tem sido implicada na manipulação de objetos. Os pesquisadores primeiro estabeleceram a sequência de disparo do cérebro quando os macacos pegavam apenas com as mãos. O experimento foi então repetido enquanto os macacos usavam alicates comuns que requeriam primeiro a abertura da mão e então seu fechamento para pegar a comida. Os mesmos neurônios dispararam na mesma ordem. Notavelmente, os mesmos neurônios também dispararam, na mesma ordem, quando os macacos usaram ‘alicates invertidos’ que requeriam que fechassem seus dedos primeiro e então abrí-los para pegar a comida, como a equipe relata hoje nos Anais da Academia Nacional de Ciências.
Rizzolatti e seus colegas concluíram que quando aprendendo a usar uma ferramenta, o padrão de atividade neuronal e de alguma forma transferido da mão para a ferramenta, ‘como se a ferramenta fosse a mão do macaco e a ponta do alicate fosse os dedos do macaco.’ Para como os mesmos neurônios poderiam afetar tanto a abertura e fechamento da mão, a equipe especula que eles podem estar conectados com outros conjuntos de neurônios que podem controlar mais diretamente esses movimentos. Os autores também apontam que a área F5 é rica em o que é chamado de neurônios espelho, um tipo de célula nervosa descoberta anteriormente por Rizzolatti que dispara tanto quando um primata desempenha uma ação e quanto quando ele vê outro indivíduo fazendo a mesma coisa (ScienceNOW, 13 de Julho de 2007). Neurônios espelho na F5, o autor sugere, podem estar envolvidos nesse processo de transferência enquanto um macaco aprende como usar a ferramenta observando outros.
As descobertas ‘justamente e claramente mostram que o uso de ferramentas por macacos envolvem a incorporação de ferramentas no esquema corporal, literalmente como extensões do corpo,’ diz Dietrich Stout, um arqueologista se especializando em uso de ferramentas na Universidade de Londres. Scott Frey, um neurocientista da Universidade de Oregon em Eugene, diz que em humanos, essa habilidade de representar ferramentas no cérebro, combinado com a capacidade de inovação, ‘foi sem dúvida um passo fundamental no desenvolvimento de tecnologia.’