Controvérsia Fabricada: A arte de criar controvérsia onde nenhuma existiu
Por Leah Ceccarelli
Tradução por Alexandre Schulter
Originalmente publicado em Science Progress
Com todo o sofismo sofisticado cercando o público hoje em dia, há uma necessidade de se estudar retórica agora mais que nunca antes. Isso é especialmente o caso quando estamos falando do ataque contemporâneo à ciência conhecido como controvérsia fabricada: quando discordância significativa não existe dentro da comunidade científica, mas é inventada com sucesso para uma audiência para alcançar fins políticos específicos.
Três exemplos recentes de controvérsia fabricada são o ceticismo quanto ao aquecimento global, a discordância quanto à AIDS na África do Sul e a campanha do movimento do design inteligente para “ensinar a controvérsia”. O primeiro desses tem sido chamado de um “pirata epistemológico” porque ele amplifica a incerteza ao redor de uma alegação científica de forma a atrasar a adoção de uma política que é garantida por essa ciência. O especialista em linguagem Frank Luntz admitiu um tanto disso em seu agora infame memorando sobre pontos de discussão sobre o ambiente, que vazou para o público em 2002, onde ele confessou que a janela de tempo para alegar controvérsia sobre o aquecimento global estava acabando, mas ele de qualquer forma impeliu o congresso republicano e líderes executivos a “continuar a fazer com que a falta de certeza científica fosse uma problema primário no debate.” A ExxonMobil estava fazendo isso quando publicou seu anúncio “Ciência Não-Estabelecida” sobre ciência climática nas páginas editoriais do New York Times em Março do ano 2000. Um editorial convidado mais recente por um leitor fez a mesma alegação nas páginas do Seatle Post-Intelligencer em Janeiro de 2008. Todos os três pareciam seguir o jogo da indústria do tabaco quando cientistas descobriram que seus produtos causam câncer; quando uma ameaça aos seus interesses surge no meio científico, eles declaram que “sempre houve dois lados à questão” e então exigem mais estudos sobre o assunto antes que ações sejam tomadas.O suporte do presidente da África do Sul Thabo Mbeki à dissidência quanto à AIDS oito anos atrás é um caso similar. Assim como o ceticismo quanto ao aquecimento global, esse ataque à ciência da pesquisa em HIV/AIDS engenhosamente virou os valores da comunidade científica contra ela mesma assinalando a importância do debate racional aberto, uma atitude cética, e a necessidade de mais pesquisas. Mbeki alegou que a comunidade científica rotulou cientistas que questionaram a ligação causal entre HIV e AIDS como “perigosos e descreditados com os quais ninguém, nem mesmo nós, deveríamos nos comunicar ou interagir”. Alegando a autoridade de dissidência com sucesso na África do Sul pós-apartheid, Mbeki condenou a comunidade científica por ocupar a “linha de frente na campanha de intimidação intelectual e terrorismo que argumenta que a única liberdade que temos é concordar com o que eles decretam ser verdades científicas estabelecidas.”
Um caso paralelo está sendo feito pelo movimento do design inteligente em conjunto com sua campanha “ensine a controvérsia” contra biologia evolucionária. O novo filme de Ben Stein, Expelled, retrata cientistas como participantes de uma vasta conspiração para silenciar qualquer um que questione a ortodoxia Darwiniana. O filme promete ser a aplicação mais extrema até hoje da estratégia de encalço da movimento do design inteligente para quebrar a supremacia da teoria evolucionária na ciência contemporânea. Assim como um encalço pode ser colocado em uma fenda de uma estrutura sólida e, com a aplicação cuidadosa de alguma força concentrada, irá quebrar aquela estrutura em pedaços, assim também os produtores desse filme esperam que ele pode quebrar a comunidade científica e permitir uma mudança na maneira como ciência é ensinada na América. É claro, qualquer alegação feita por biólogos de que não há controvérsia científica a ser ensinada meramente alimenta a teoria de conspiração.
À luz desta dificuldade, alguns sugeriram que a melhor resposta a controvérsia fabricada é nenhuma resposta. Eles dizem que contra-atacar tal coisa sem sentido meramente dá publicidade a esses sofistas modernos e habilita que seus esforços contínuos reabram debate sobre ciência estabelecida. Entendo este impulso de permanecer calado em frente à tolice, mas como uma professora de retórica, acho que é um caso de miopia ceder o palco público às forças anti-científicas na esperança ingênua de que ninguém dará atenção a eles. Desde que a área da retórica nasceu, existiram aqueles que usaram maliciosamente o poder da persuação para enganar audiências e foi apenas com contra-persuação cuidadosa que tais fraudes foram superadas.
Entre os sofistas antigos ou sábios que ensinaram a nova arte da retórica a aqueles que pagassem seu preço no século V A.C. estava Gorgias, o qual é dito que conseguia persuadir uma multidão a ignorar o especialista e escutar ele ao invés, e Protágoras, que alegava existir sempre dois lados a uma questão e que era sempre o trabalho do sofista fazer o caso mais fraco parecer mais forte. Foi para opor este tipo de ilusão que Aristóteles codificou a arte da Retórica no seu tratado com o mesmo título. Ele identificou que diante de audiências nem mesmo a possessão do conhecimento mais exato possível garante que o palestrante será persuasivo. Então Aristóteles promoveu o estudo da retórica para que especialistas pudessem rebater aqueles que tentam enganar audiências públicas.
Como uma estudiosa de retórica, pesquisei alguns casos modernos de controvérsia fabricada para descobrir como melhor refutar esses sofistas contemporâneos e elaborei algumas hipóteses preliminares sobre o que torna seus argumentos tão persuasivos para o público. Primeiro, eles habilmente invocam valores que são compartilhados pela comunidade científica e o público Americano em geral, como liberdade de expressão, investigação cética e a força revolucionária de novas idéias contra uma ortodoxia repressora. É difícil argumentar contra alguém que invoca esses valores sem parecer não-científico ou anti-Americano. Em segundo lugar, eles se aproveitam da tensão entre as esferas técnicas e públicas na vida Americana pós-moderna; cientistas altamente especializados não podem perder tempo se empenhando em comunicação pública cuidadosa e ficam então surpresos quando o público desconfia, tem medo e opõe eles. Em terceiro lugar, os sofistas de hoje se aproveitam da idéia errada que o público tem sobre o quê é ciência, retratando-a como uma estrutura de consenso completo construída a partir do acúmulo incessante de dados que não podem ser atacados; qualquer diferença de opinião de qualquer cientista é então vista como evidência de que não há consenso e então a verdade não deve ter sido descoberta ainda. Um retrato mais acurado da ciência a vê como um processo de debate entre uma comunidade de especialistas no qual um lado excede o valor de outro no balanço do argumento e aquele lado é declarado o vencedor; poucos céticos podem permanecer, mas eles são vastamente excedidos em números pelo resto e o processo democrático da ciência se move para frente com o peso coletivo da maioridade da opinião especializada. Cientistas adentram esse processo democrático quando ingressam na profissão, de forma que a demanda para o lado vitorioso para compartilhar poder nas salas de aula com os perdedores, ou para continuar o debate sobre uma questão que já foi estabelecida pela maioria dos cientistas de forma que os políticos atrasem a tomada de ações em relação às descobertas, parecem particularmente não-democrático para a maioria deles.
Aristóteles acreditava que coisas verdadeiras “têm uma tendência natural de prevalecer sobre seus opostos,” mas é preciso um bom retórico para garantir que isso aconteça quando sofisma sofisticado está a solta. Eu concordo; somente expondo controvérsia fabricada pelo que ela é, reconhecendo seu poder retórico e contra-atacando aqueles que são habilidosos em fazer com que a multidão ignore os especialistas enquanto imaginam um debate científico onde nenhum existe, podem os cientistas e seus aliados usarem o meu campo de trabalho para alcançar os que Aristóteles visionou para ele - um estudo que ajuda o argumento que é na verdade mais forte também parecer mais forte ante uma audiência de leigos.