Alexandre Schulter

setembro 23, 2010

O Papa e a AIDS

Filed under: Razão — alxnd @ 6:29 pm

Publicado originalmente em Badscience
Por Ben Goldacre
Tradução por Alexandre Schulter

ratzinger

Nesta semana o papa está em Londres. Você terá suas próprias visões sobre a discriminação contra mulheres, a homofobia e a conspiração internacional criminosa para acobertar o abuso infantil em massa. Meu interesse especial é seu papel na morte de 2 milhões de pessoas todo ano com AIDS.

Em Maio de 2005, logo após assumir o posto, o papa fez seu primeiro pronunciamento sobre a AIDS e aproveitou a oportunidade para contrariar o uso da camisinha. E endereçou suas declarações para bispos na África do Sul, onde alguém morre de AIDS a cada 2 minutos; Botsuana, onde 23,9% dos adultos entre 15 e 49 são HIV positivos; Suazilândia, onde 26,1% dos adultos tem HIV; Namíbia (15%); e Lesoto, 23%.

Isso está acontecendo. Em Março de 2009, em seu vôo para Camarões (onde 540.000 pessoas tem HIV), o Papa Benedito XVI explicou que a AIDS é uma tragédia “que não pode ser superada com a distribuição de camisinhas, a qual até agrava o problema.” Em Maio de 2009, na Conferência Congolesa de Bispos fez o pronunciamento “de toda a verdade, a mensagem do papa que recebemos com prazer confirma nossa luta conra HIV/AIDS. Nós dizemos não para camisinhas!”

Isso não é um problema remoto. A posição do papa tem sido apoiada, durante o ano passado apenas, pelo Cardinal George Pell de Sydney, Australia, e pelo Cardinal Cormac Murphy O’Connor, Arcebispo de Westminster. “É bem ridículo falar sobre AIDS na África e camisinhas, e a Igreja Católica,” diz O’Connor. “Eu falo com padres que dizem, ‘Minha diocese é inundada com camisinhas e há mais AIDS por causa delas.’”

Alguns tem sido mais imaginativos na sua jornada para disseminar a mensagem contra camisinhas. Em 2007, o Arcebispo Francismo Chimoio de Moçambique anunciou que fabricantes europeus de camisinhas estão deliberadamente infectando camisinhas com HIV para espalhar AIDS na África. De cada 8 em Moçambique, um tem HIV.

Foi o cardinal Alfonso López Trujilo da Colômbia quem de maneira famosa argumentou que o vírus HIV pode passar por minúsculo furos na borracha das camisinhas. Novamente, ele não estava sozinho. “A camisinha é uma rolha,” disse o Bispo Demetrio Fernandez da Espanha, “e não sempre eficaz.”

Em 2005 o Bispo Elio Sgreccia, presidente da Pontifícia Academia da Vida, explicou que pesquisa científica nunca provou que camisinhas “imunizam contra infecção.” Ele está certo, elas não fazem isso. Elas impedem que o vírus que mata você seja transmitido durante o sexo. E isso é muito útil.

O quão eficazes são as camisinhas? Não é sábio exagerar seu caso. A revisão sistemática atual da literatura sobre a questão publicada pela Cochrane encontrou 14 estudos. Esse estudos geralmente observaram a transmissão de HIV em casais estáveis onde apenas um dos parceiros tem HIV. Muitos deles observaram pacientes de transfusão e hemofílicos. Em geral, taxas de infecção de HIV foram 80% menores em parceiros que relataram sempre usar camisinha, comparado com aqueles que disseram nunca usar. 80% é muito bom. Eu gostaria de 100%, pelo bem de todos. Eu tenho 80% (apesar que camisinhas também protegem contra câncer cervical, gonorréia e outros).

Na verdade, não há uma única solução perfeita para o problema da AIDS: se as coisas fossem tão simples, não estariam morrendo 2 milhões de pessoas por ano. Dizer às pessoas para ser absterem não faz com que todos se abstenham, e dizer para as pessoas usarem camisinhas não faz com que todo mundo instantaneamente e consistentemente use.

Você faz tudo ao mesmo tempo, urgentemente, porque 2 milhões de pessoas estão morrendo todo ano. ABC é um acrônimo amplamente usado na África: Abstenha-se, seja fiel (Be faithful), use Camisinha. Lutar ativamente contra uma dessas medidas eficazes é plenamente destrutivo.

Ratzinger proclamou que “A presença mais eficaz na frente de batalha contra AIDS é na verdade a Igreja Católica e suas instituições.” Isso é uma afirmação lúdicra. Eles são a única organização política internacional influente que ativamente diz às pessoas não fazer algo que funciona, em larga escala. Seus próprios números mostram que os números estão crescendo na África, mais rápido que a própria população.

Não me importo com o que qualquer um acredita, fico feliz em sugerir abstinência. Mas sabotar uma intervenção eficaz que previne uma doença que mata 2 milhões de pessoas por ano torna você um sério problema de saúde global.

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