No início do ano de 2007 escrevi um artigo científico sobre um trabalho desenvolvido no ano anterior no Laboratório de Integração Software/Hardware (LISHA) da UFSC. Em meados de junho tive a feliz notícia de que o artigo tinha sido aceito para publicação no Journal of Object Tecnology (JOT) em uma edição especial que seriam os anais da conferência TOOLS’2007 a ser realizada em julho de 2007 em Zurique, Suiça. O artigo se entitula “A Tool for Supporting and Automating the Development of Component-based Embedded Systems” e está publicado aqui.
Já tinha publicado alguns artigos antes, mas não tinha tido a oportunidade de apresentá-los porque nunca havia conseguido ajuda de custo para tal. E dessa vez não foi diferente, não ganhei um tostão sequer de nenhum departamento da UFSC, nem do laboratório, nem da reitoria; só o laboratório pagou a inscrição do evento. Contudo, já não trabalhava mais lá e, de um bolsista pé-de-chinelo, passei a empregado do setor público! Então era a hora.
Negociei alguns dias de folga, engatei com uns dias que tinha em haver e no final consegui separar 2 semanas para viajar. Só que tinha um problema: entre o momento que a viagem estava certa e a data de partida eram só 14 dias para fazer o planejamento. Foram duas semanas muito estressantes. Além de ter que elaborar um roteiro de viagem maximizando o que eu iria fazer por lá naquelas míseras 2 semanas, tinha que preparar uma apresentação de trabalho científico de nível internacional.

Guias, mapas, apresentação no congresso, euros
Saindo de Florianópolis com a TAM, havia uma escala em Guarulhos com troca de avião e outra em Paris com troca de companhia aérea para chegar no destino final: Zurique. Em São Paulo a espera era para de ser de 4 horas, mas na época estava acontecendo uma greve dos controladores de vôo da aeronáutica e acabei tendo que esperar mais de 12 horas. No aeroporto em Paris acabei perdendo o vôo para Zurique por 30 minutos e a TAM assumiu a responsabilidade. Todo mundo do meu vôo que perdeu conexões por conta desse atraso foi colocado em outros vôos no dia seguinte e foram obrigados a passar a noite em um hotel 5 estrelas. Fiz amizade com uma alemã, um paranaense e uma diplomata de brasília. Jantamos e tomamos vinho por conta da TAM.

Aeronave do primeiro trecho

Um dos pratos do jantar no hotel 5 estrelas

Quarto do hotel
O vôo de Paris à Zurique foi espetacular. Sobrevoar os Alpes Suiços num dia ensolarado deve fazer qualquer piloto sorrir. A chegada do avião em Zurique também foi algo marcante, pois a cidade fica ao redor de um grande lago azulado e a rota de pouso circula esse lago. Foi aí que comecei a ficar empolgado com a viagem.

Aproximação do aeroporto em Zurique, Suiça
Duas horas depois de aterrissar, depois de ter pego 1 trem, 2 bondes, caminhar 30 minutos e constatar que a Suiça dificilmente sairia do topo da minha lista de melhores países já visitados, cheguei ao albergue que tinha reservado com antecedência para ficar 4 dias. Era de manhã ainda e a minha cama só seria liberada às 18h, o que me decepcionou, já que eu realmente precisava de um descanso. O dia anterior tinha sido duro e tinha dormido apenas uma hora naquele hotel em Paris.

Bonde elétrico

Caminhando em direção ao Youth Hostel Zürich
Comi um lanche e saí para um passeio no lago que ficava ali perto. Acabei descobrindo que estava acontecendo o Iron Man Suiça 2007. A etapa de natação já tinha terminado e estava no meio da etapa de ciclismo. Tinha uma galera nos arredores do lago, centenas de competidores e vários estandes de lojas de esporte, venda de comida e bebida. Uma verdadeira festa. E achei dinheiro no chão… Pra quê??? Tomei uns 2 litros de chope de trigo e dormi na grama. Foi foda.

Lanche

Etapa de ciclismo do Iron Man

Zürichsee

Ninguém é de ferro!
Devolta no albergue conheci meus companheiros de quarto: dois competidores e um japonês maluco que não falava inglês, nem alemão, nem francês, nem nada. Acho que nem japonês ele devia falar direito. Conseguiu de alguma forma me explicar que era um escritor e estava ali sem um motivo em específico, apenas ficava ali no quarto o dia inteiro pensando na vida. À noite foi que o japonês me tirou do sério, roncava igual uma motoca com o escapamento furado, acordava e simplesmente acendia a luz do quarto e saía fora pra ir no banheiro, ficava escovando o dente por 30 minutos, falava sozinho. Quase tive vontade de bater naquela criatura. Mais uma noite mal dormida.
De manhã fui o primeiro a pular da cama, ataquei o café da manhã do albergue – que por sinal foi o melhor café da manhã de toda a viagem – e saí para minha caminhada de 15km até o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ) onde aconteceria o congresso de 4 dias. No caminho um mendigo que falava 3 línguas me pediu dinheiro – não dei nada ao maldito, por quê não vem dar aula de línguas no Brasil? -, vi banqueiros engravatados indo de patinete pro trabalho, Porches e Ferraris pra todo lado, só gente bonita, feliz e rica. Realmente uma cidade diferente pra mim. Me distraí, me atrapalhei com os mapas e acabei chegando atrasado na ETHZ.

Nas ruas de Zurique

Achei a ETHZ

Departamento de computação da ETHZ
Na conferência só o pessoal top da área de Engenharia de Software: Bertrand Meyer (Eiffel), Ivar Jacobson (UML, RUP), Steven Milner, Erich Gamma (Eclipse), Dave Thomas (manifesto ágil). Os trabalhos eram de tão alta qualidade que fiquei até com medo de apresentar o meu. Minha palestra seria no terceiro dia e eu nem tinha encontrado tempo para praticar ainda. Mas nada que acordar os dois dias seguintes as 5 da manhã não resolvesse…

Primeiras palestras do TOOLS'2007

Dave Thomas e sua apresentação inusitada
No primeiro dia fiz amizade com um pessoal e um cara foi bem caramada, um polonês fanático por filmes de horror trash, como o Plano 9 do Espaço Sideral. Aprendi que na Polônia não se fala alemão e sim polonês. No primeiro dia aconteceu também o jantar de abertura, no alto de morro do lado da cidade, o Uetliberg. A subida até lá é de trem, jantamos, roubamos garrafas de vinho e descemos no último trem rumo ao centro da cidade. Acabamos ficando em um barzinho minúsculo e, nos padrões suiços, bem agitado. Trabalhei de tradutor português/inglês para duas prostitutas brasileiras, disse para o Ivar Jacobson que UML não servia pra nada (ele é o “inventor” dessa linguagem) e uma participante do congresso achou que eu era um menino pobre da Favela da Rocinha e me pagou uma cerveja.

Vista do centro de Zurique do alto de uma torre de observação do Uetliberg

Jantar de abertura da conferência

O Polonês
Bora pro albergue à pé denovo (15km). Já fiz coisa sofrida na vida, mas essa caminhada foi pra matar. Na metade admiti a derrota e peguei um táxi (um Mercedes Classe C). Chegando lá no albergue estava o bastardo do japonês executando sua sinfonia. Peguei meu colchão e desmaiei no corredor do lado de fora do quarto. Ninguém viu, já que fui dormir depois que todo mundo e acordei antes pra estudar minha apresentação. Lá pelas 9:00 resolvi matar a parte da manhã das palestras e saí pra passear pela cidade. Às 12:25 apareci no restaurante onde os tickets que ganhei junto com o kit da conferência me davam direito a almoçar, fiz meu prato e fui requisitado gentilmente que devolvesse a comida e voltasse depois porque o ticket era para 12:30 e não 12:25. Era a maldita exatidão suiça.

Nas ruas de Zurique

Nas ruas de Zurique
Apresentei meu trabalho sem gaguejar muito no meu inglês mal-praticado e dei adeus à Suiça. Próxima parada era Paris.